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ALIENAÇÃO, O QUE É ISTO?

09 de abril de 2010 - 21:12

                      
                                                                              
  Francisco Miguel de Moura*

           Bem no começo do último capítulo de “Obra Aberta”, Umberto Eco, filósofo e romancista italiano registrou que uma cronista famosa assim se referia à palavra “alienação”:
         – “Dentro em breve quando formos tomados pelo desejo de pronunciar a palavra “alienação”, melhor será taparmos a boca, pois isso pareceria terrivelmente fora de moda”. Vamos ver se o leitor concordará com a cronista, depois de nossa argumentação, seguindo de perto o pensamento de Umberto Eco, que eu endosso com todas as letras.
O homem nasce livre e ao mesmo tempo preso. Livre, porque tem desejos, mais do que se possa imaginar e muito mais do que aquilo que seja humanamente possível realizar. Neste sentido, direi que o homem é sujeito e objeto de desejos.  Não obstante, ao mesmo tempo em que nascemos livres, ficamos sempre presos ao mundo. O homem é forma, não apenas conteúdo: é corpo e espírito. Isto é próprio de toda a Natureza. Mas, no homem, a complexidade é maior por causa da liberdade adquirida ao longo de sua evolução como espécie (para quem acredita na evolução darwiniana e não no criacionismo da Bíblia). Na verdade, a liberdade é uma riqueza especial e própria do homem, para ser usada com consciência e sabedoria (conhecimento). Por isto e para isto ele aprendeu a pensar, imaginar, refletir. É a autoconsciência.
Foi por causa sua fragilidade – na verdade um dos animais mais indefesos da Natureza – que o homem começou a agrupar-se em bandos, tribos, famílias, nações. Assim, ia deixando de ser livre, viver só para si, para ser integrado ao mundo social – viver para o outro. E essa integração lhe exigiu, em troca, alguma coisa. Essa alguma coisa, ainda hoje, se chama alienação. Mas isto não é surpresa nem é estranho, visto que o nascimento do homem natural não será compreendido sem sua origem – filho do amor entre homem e mulher, daí a sua dupla face existencial: oferecer e receber. Só no amor o homem refunde suas duas faces: o “eu” e o outro, em espírito e carne, alma e corpo. Por isto é que o amor transcende. Segundo Umberto Eco, há dois tipos de alienação: alienação-em-algo e alienação-de-algo: o primeiro é a clássica alienação do trabalhador na mercadoria; o segundo, é o estranhamento das coisas – sendo que o mundo por isto fica dividido entre o eu e o outro.
Discutindo o pensamento dos dois filósofos alemães que trataram especificamente do assunto alienação, Hegel e Marx – o contemporâneo escritor italiano Umberto Eco chega à seguinte conclusão, citando outro autor, André Gorz, também italiano, em obra de nome “La morale della storia”, de 1960: “Delineiam-se, assim, as análises da relação de alienação, considerada como constitutiva de qualquer relação nossa com os outros e com as coisas, no amor, na convivência social, na estrutura industrial”.  E prossegue Umberto Eco desenvolvendo o tema, com outro filósofo, J. Hyppolyte: “E o problema da alienação tornar-se-ia o problema da autoconsciência humana que, incapaz de pensar-se como “cogito” separado, somente se encontra no mundo que constrói, nos outros em que reconhece, e que às vezes desconhece. Mas esse modo de reencontrar-se nos outros, essa objetivação, constitui sempre, em maior ou menor medida, uma alienação, uma perda de si e ao mesmo tempo um reencontrar-se”.
Para mim, esta foi a maior lição que tive, nas minhas leituras de Eco: – o esclarecimento do que é alienação, de que todos os homens são de uma forma ou de outra alienados, e não há como sair dessa. Há, apenas, como melhorar ou diminuir a alienação: com liberdade, autoconsciência e vigilância.


_____________
*Francisco Miguel de Moura, escritor, membro da Academia Piauiense de Letras (APL), da Academia de Letras da Região de Picos (ALERP), da União Brasileira de Escritores (UBE-SP) e da International Writers and Artists Association (IWA-Toledo, Estados Unidos)
 

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