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Crônica: OS CHATOS EVENTUAIS

24 de janeiro de 2010 - 00:10

Francisco Miguel de Moura

O chato é um animal de todos os tempos e está em todos lugares, inclusive onde não deve: é um inconveniente.
O escritor Guilherme Figueredo, no seu «Tratado Geral dos Chatos», logo no início diz que não vale fazer piadas com o livro dele. Por exemplo, dizer que é um livro chato. Mas o livro é chato mesmo e, por via de consequência, seu autor também.
Assim, o leitor deste jornal, ao pôr o olho nesta crônica, pode dizer:
- Ah, não vou ler nada sobre chatos, é muita chatice.
E ele tem toda razão. Porque todos somos chatos, inclusive eu e você. Mas nem todos são chatos em todos os lugares e todos os dias. Esses são os chatos eventuais. É deles, principalmente, que tratamos aqui. Chato eventual não é aquele que comparece a todos os eventos. Não. Eles o são porque não se inscreveram entre os definitivos. Assim, que nos conformemos em ser excluídos do rol dos eternos chatos - os vitalícios.
Na revista «VEJA» de 6.3.96, leio entrevista com Roldo Goi Júnior (que ninguém conhece) e a primeira frase (de autoria do entrevistador, naturalmente) é a seguinte:
«Você já parou em frente do espelho e se perguntou se a imagem ali refletida é a de um chato?»
Pronto, não vou responder à pergunta mas já encontrei o primeiro chato da entevista, além do entrevistador: - é o espelho.
O chato-mor é o chefe (porque as pessoas são obrigadas a ouvi-lo, diz Goi Júnior). Sendo Goi Júnior treinador de executivos, tinha que ser assim: chato (ele mesmo se declara e acrescenta que não gosta de sua própria voz).
Repassando a referida entrevista por alto, o entrevistado refere-se a muitos outros tipos de chatos e chatices: locutores exportivos, chofer de táxi (quando insiste em conversar com o passageiro), o engraçadinho (que fala durante o filme todo, no cinema), a sogra, a «perua», o playboy, os filmes franceses, os artigos publicados nos sumplementos literários brasileiros, falta de educação, excesso de informações (já reparou o leitor no excesso de informações que o Jô Soares exibe? quem viu o programa com o paraibano sobre cinema tem um bom exemplo), os chatos culinário, telefônico e divinal. Outros tantos são: o vidente, o desconfiado, o ressentido, o fofoqueiro, etc. Guilherme Figueiredo disse que «todo chato é bonzinho». Mentira, bondade dele. Os chatos são maus, na maioria das vezes inconscientemente. Mas são maus.
Em alguma parte, já li que o americano comum é um chato. Porque todo americano é especialista em alguma coisa. E só fala naquilo, não tem outro assunto. O especialista é um chato. Agora, penso em mais outros: o intelectual (só fala difícil), o apaixonado (por qualquer assunto: futebol, carnaval, vinho, jogo, etc.), o escritor (só fala no que escreveu ou está escrevendo), o poeta ou recitador, aquelas pessoas que contam a mesma anedota antiga/surrada como se fosse a última novidade (você já conhece? e não adianta dizer que sim, pois ele conta-a em seguida), todos os parentes («amigos a gente escolhe, parentes não»), os que forçam para que você os reconheça e lembre de fatos ou os testemunhe, os que escrevem humor negro como Nelson Rodrigues («pra lá de Copacabana, tudo é mato»), os velhos (estes muitas vezes são chatos divinais ou ressentidos), os feios e os «gostosos» também («é chato ser gostoso» - alguém já disse esta frase), o bêbedo, o fumante, o amigo (porque pede nossas coisas emprestadas), o cachorro e o dono, etc. etc. Não vou esticar a lista pra não «encher» mais do que já enchi.
O filósofo e romancista Jean-Paul Sartre escreveu que «o inferno é o outro», mas a tradução real do seu pensamento é esta: «o chato é o outro».
Enfim, se você não leu esta crônica, pode sair por aí vangloriando-se: «não li e não gostei», o que é uma chatice sem limite, desde que inventaram a leitura dinâmica, pela qual você pode «posar» de sabedor de tudo e ignorante de tudo, o que é providencial para libertar-se daqueles chatos que vão perguntar-lhe: você leu? que tal? gostou?
Por aí você vai notando que o mundo é chato mesmo. E Deus, onipresente, onipotente, onisciente, ao criá-lo, deveria estar num momento de «chatura». Senão, tê-lo-ia moldado em forma menos chata. Por exemplo, que cada pessoa fosse realmente diferente e não todos iguais, todos uns chatos.
_________________
*Escritor brasileiro, membro da Academia Piauiense de Letras, Teresina – PI, Brasil e da International Writers and Artists Association, Toledo, OH, Estados Unidos da Amárica WEB: usinadeletras.com.br
Francisco Miguel de Moura*

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