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LIVROS, PESSOAS E COISAS

31 de dezembro de 2009 - 11:07

Francisco Miguel de Moura*

 

O nome de cada pessoa é dado pelos pais, no batismo e depois no cartório. Pouco tem a ver com o que a criança é ou vai ser.

Daí se diz acertadamente que “o nome não faz a pessoa, a pessoa é que faz o nome”. No meu entender, a criança não chega a ser uma pessoa: É uma criatura, mais instinto, mais indivíduo que aprende a conviver com os outros, por isto merece o cuidado e o carinho dos adultos. Somente depois de receber aquela carga de hormônios que explode na adolescência – época de tão rápidas transformações – é que a criatura da espécie humana começa a aparecer e afirmar-se em pessoa.

Já o nome das coisas é diferente. Por isto a língua (as línguas, de modo geral) tem sua grande importância no desenvolvimento e na interpretação da vida e do mundo. Quem dá o nome às coisas, naturalmente encontrou alguma semelhança ou diferença, metáfora ou metonímia, para escolher aquele som ou grupo de sons, ruídos e gestos.

Não sei se isto que digo é científico, se pode tornar-se regra geral, mas uma coisa é certa: Quando cursava o ginásio – o curso que se seguia ao primário, ambos de 4 anos – o professor de português, meu mestre Pe. David Ângelo Leal, de saudosa memória, estimulava o conhecimento da Etmologia, origem das palavras.

Uma língua vem de outra, a nossa do latim com alguma coisa do grego. Os nomes são paridos por outros nomes, e assim acredito que ocorra na vida da sociedade. Nascemos sentindo e até pensando, quem sabe, mesmo que um pensamento primitivo. Mas ninguém nasce sabendo nem nunca saberá tudo. Uns aprendem com os outros. Exemplos não faltam.

Deus vem de teos, adeus vem de Deus, entusiasmo possui em sua raiz a palavra teos, que é o mesmo Deus. Eu, particularmente, creio que a palavra Deus é a mais conhecida e falada no mundo, se computadas todas as línguas. Nesse ponto, contrario o Millor Fernandes quando diz que a palavra mais falada e conhecida do mundo é goal.

A esta altura, o leitor já se pergunta impaciente:

– Para que este nariz de cera? Por que não diz logo a que veio?

Sim, agora é o livro, embora no título tenha vindo em primeiro lugar. Nos idos de 1980, olhando detidamente os livros de uma livraria em Salvador, dei de cara com um de contos, denominado “O menino perdido”.

Decepcionei-me e ao mesmo tempo fiquei deslumbrado. De autoria do americano Thomaz Wolfe (não confundir com o Tom Wolf), é um livro de contos que tem por tema o contraste da infância com a vida adulta, profundo e bem escrito.

E eu, que tinha começado uma obra com o mesmo título, fiquei perplexo. E agora? Pensei, pensei... E daí, em diante, o meu passou a chamar-se “O menino quase perdido”. Mudei apenas o título, dei continuidade ao trabalho.

Não compondo apenas contos, mas outras peças consideradas crônicas e poemas e um pouco de romance, pelo encadear dos fatos e finalização já pegando parte da adolescência. Resultou uma espécie de memorial. Para mim, então falando de fora, porque não posso mais mudar a estrutura e o conteúdo, o meu se aprofunda na infância de um menino pobre, do interior, sem grande espaço para contraposições a outras idades.

Não creio em memórias, não escreveria jamais as minhas, mas acredito que toda infância é rica. Nós, grandalhões, jamais vamos entendê-la na sua grandeza, na sua beleza e até na sua bondade. E ficou claro, em meu “O menino quase perdido” que muito do ser da infância me foi revelado, não sei se consegui traduzir em linguagem de poesia e ficção. Mas ficou-me, sim, a convicção de que muito da infância levamos para a vida adulta e nos acompanhará até a sepultura.

_________________

 *Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro, escreve e é publicado todos os sábados, no jornal "O Dia", Teresina, PI, onde são publicados a maioria dos artigos deste blog. Romancista, contista, cronista e crítico literário, além de poeta, em cuja categoria está sainda um novo livro com o título "A(r)fogo - Romance da Revolução, pela Paco Editorial, Brasília.

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