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O menino - Uma obra quase biográfica

03 de setembro de 2011 - 18:08

Deolinda Marques*



 

Como leitora contumaz da obra do escritor Francisco Miguel de Moura, ao terminar  O Menino (quase) Perdido (2009), poderia afirmar que é um livro maravilhoso, pois nele encontramos representadas muitas das nossas lembranças de criança e porque nos faz reviver com saudade a infância que se foi. Como o menino Xico, entrei na nave do tempo e me transportei para minha Lagoa Grande de outrora. Vi-me rolando na areia do terreiro, tirando cacho de bananinha, comendo coalhada com rapadura, atravessando o Guaribas cheio a nado, com meu pai me esperando mais abaixo, caso o rio me carregasse. Pude ouvir o balido triste das ovelhas do meu avô Joaquim Marques; sentir o cheiro gostoso do coentro e da cebola, quando aguava canteiros, sem nem mesmo poder direito com a cuia. Lembrei das histórias de alma e de caçadas, contadas pelo meu avô Neno. Sonhei com o ouro da casa da finada Anália (que até hoje continua lá, uma vez que ninguém conseguiu arrancá-lo). Ouvi a toada saudosa das Cantorias de Viola e relembrei algumas cantigas de Reisados que ficaram guardadas na memória, como:           
                                                            O senhor, seu Zé Marques,
Folha da cana caiana.
Quanto mais a cana cresce
Mais aumenta a sua fama.


Senhora dona Quindor
É a flor da jitirana.
É a jovem mais bonita
Que eu já vi nesta semana.


Senhor, seu Zé Filho,
Fita preta no chapéu.
Sua pessoa merece
Patente de coronel.


Senhorita Deolinda,
Não se dê por agravada.
Só ficou por derradeira,
Por ser a mais estimada.
Vi-me também numa sala de aula (grande) junto com alunos enormes (eu era a menorzinha de todos), ouvindo a cantilena monótona de um coro de vozes: “um-bê-cum-a:bê-a-bá”, “um-bê-cum-é: bê-e-bé”, “um-bê-cum-i: bê-i-bi”, “um-bê-cum-o: bê-o-bo”, “um-bê-cum-u: bê-u-bu”. Senti o mesmo medo de quando perdi a “licença” detrás da casa, morrendo de dor de barriga. Revivi a surpresa de descobrir meu nome ”verdadeiro” – Deolinda, quando pensava que meu nome de Batismo era Linda. Não gostei nada! Era muito grande para escrever. 

Mas, como Xico, também fui uma menina chorona, que levava os gritos do meu avô Neno, pois era ele quem mais se aborrecia com meu chororo e a quem minhas lágrimas não provocavam nenhuma piedade. Senti a dor dos cocorotes secos de minha mãe, dados por qualquer coisa, e a tristeza de, já maiorzinha, ter de ajudar a enterrar anjinhos, cantando excelências. Todas essas lembranças só revisitaram minha mente porque a experiência de vida e o sofrimento dos meninos nordestinos (sejam do sexo masculino ou feminino) são muito semelhantes, em qualquer época ou circunstância. Encontrei-me na obra e recomendo a qualquer leitor, seja ele nordestino ou de qualquer parte do mundo.

Num comentário menos impressionista, poderia afirmar com convicção que a leitura d’O Menino (quase) Perdido faz lembrar Infância, de Graciliano Ramos, até mesmo na polidez da linguagem e na grandiosidade de recursos expressivos, que permitem ao leitor a construção de uma imagem real e concreta daquele menino e do seu mundo pintado em cores vivas e impregnado de cheiros inesquecíveis.
Teresinha Queiroz, como leitora primeira do livro, nos alerta (em sua belíssima apresentação “A vida começa num sonho”) para a necessidade de retomarmos o tempo como forma de religar passado e presente, resguardando o passado e evitando a perda de nós mesmos. Mostra a importância da obra como trabalho de redescoberta (tanto para o autor quanto para o leitor) por nos fazer refletir sobre o sentido da vida e a urgência de concretizar sonhos e eternizar lembranças que ameaçam escapar da memória. Numa atitude proustiana, nos leva a pensar sobre a transitoriedade e fugacidade do tempo e nos conscientiza sobre a perda da criança que há em cada um de nós. Conclui, sabiamente, afirmando que “o tempo só pode ser verdadeiramente encontrado sob o signo da Arte” (p. 13).

Já um leitor amargurado, inconformado com a dureza dos problemas vividos na infância, semelhantes ao do menino Xico, afirmaria que o livro não passa de um relato triste e autobiográfico, tal qual aos de Graciliano Ramos, Zé Lins e tantos outros memorialistas. Justificaria que leitores mais sentimentais morreriam de pena daquele menino sofrido e se indignariam com a atitude de um pai que pretendia “dar um filho para um desconhecido criar”. Condenariam o desamor e o sofrimento vivenciados por aquela criança, responsabilizando o espírito aventureiro de um homem que tinha o papel de educar – mestre-escola, mas praticava ações (aparentemente) cruéis. Classificaria a obra como um desabafo amargurado de um adulto traumatizado que não consegue esquecer (e quer lembrar muito mais) a infância sofrida. Por isso, rememora tudo, numa tentativa de si compreender, de expurgar os traumas, de lavar e enxaguar a alma.

Para esse tipo de leitor, a autobiografia é um gênero “menor” (não-literário) que tem funções, apenas, pragmática e/ou catártica. Prática, quando o objetivo é transmitir para outrem experiências vividas exemplares. Catártica, quando o autor pretende, tão somente, purgar seus traumas e/ou alcançar um autoconhecimento. Nesta última função, a catarse também se dá no leitor, uma vez que este vivencia experiências ímpares e/ou nunca anteriormente vividas; se angustia, sofre com as dores e os sofrimentos do outro e, na maioria das vezes, cresce espiritualmente, transformando-se numa pessoa melhor, mais humana.

Mas a autobiografia não é um gênero “menor”, nem tem função apenas didática e/ou catártica. Para Bakhtin, ela possui função estética “quando o autor-criador não se confunde com o autor-pessoa”.

Segundo FARACO (2010) (1), no texto “O autor e o heroi na atividade estética”, escrito provavelmente por volta de 1920-1922, Bakhtin estabelece a distinção entre autor-pessoa e autor-criador. Assinala que o autor-pessoa é o artista, o escritor e se distingue do autor-criador que é a função estético-formal, que organiza a obra. Para ele, mesmo que a voz do autor-criador seja a do escritor como pessoa (como é o caso das autobiografias), ela será esteticamente criativa se houver um “deslocamento”, ou seja, “se o escritor for capaz de trabalhar em sua linguagem permanecendo fora dela” (p. 40). Essa exterioridade no ato criador, que muitas vezes é questionada no caso da autobiografia, é justamente o que ocorre em O Menino (quase) Perdido, de Chico Miguel, uma vez que, segundo depoimento do próprio autor-pessoa, esta obra foi concebida há muito tempo, mas, só agora, depois de um longo distanciamento de tempo e espaços, tornou-se material estético.

Para Bakhtin, “o autor-criador é quem dá forma ao conteúdo, não apenas registrando passivamente os fatos da vida, mas, recortando-os e reorganizando-os esteticamente, uma vez que o ato criativo envolve um complexo processo de transposição da vida para a arte” (p. 40). Assim sendo, quem compõe o objeto estético não é o autor-pessoa, mas o autor-criador. No caso de O Menino (quase) Perdido, quem compõe a obra não é o menino Xico. É o poeta, contista, cronista, romancista, ensaísta, e agora memorialista, Francisco Miguel de Moura, que conta com uma boa experiência de vida, agraciada pelos anos, e com uma vasta capacidade de transformação estética, como autor-criador.

Uma análise psicológica da obra talvez se interessasse em entender e tentar explicar por que algumas imagens, fatos, acontecimentos permanecem na memória, outros não. Isso sempre me intrigou! Assim como, nunca pude entender por que a noção de tempo, tamanho, distância é tão diferente entre crianças e adultos.  Terezinha Queiroz arisca explicar que “(...) deve haver algum sentido oculto na maneira como essas costuras da idade se processam e no fato de essa volta acontecer ou de fazer-se necessária quando nossa infância nos parece mais distante e quase olvidada” (p.11). Nesse sentido, Bakhtin nos esclarece que, no ato artístico, é o autor-criador que dá forma ao conteúdo. Para tanto, “ele não apenas registra passivamente os eventos da vida, mas, a partir de certa posição axiológica, recorta-os e reorganiza-os esteticamente” (p. 39)

Entendido fundamentalmente como uma posição estético-formal, “o autor-criador materializa a relação heroi/mundo, olhando-os com simpatia ou antipatia, distância ou proximidade, reverência ou crítica, gravidade ou deboche, aplauso ou sarcasmo, alegria ou amargura, generosidade ou crueldade, júbilo ou melancolia” (p. 38). O autor-criador d’O Menino (quase) Perdido, ao selecionar as lembranças e fatos narrados, consegue um distanciamento, uma isenção tamanha, que só é possível aos grandes escritores. Quem sabe por isso, em alguns momentos, faz uso (talvez até inconscientemente) da 3ª pessoa – narrador de 3ª pessoa, o que não é comum em obras memorialistas. Esse narrador, que não é mais um menino, demonstra esta consciência, quando afirma:

“No menino Xico (ou melhor, no escritor Chico Miguel) não ficou mágoa dos beliscões e xingamentos. Se agora revolve a história, é por homenagem a Zezinho, seu primo, que muito tempo depois se tornaria conhecido como Zé Toinho, vindo a falecer em Brasília, depois de ajudar tantas pessoas” (p.33).

Como bem se pode ver, o escritor Francisco Miguel de Moura não é um traumatizado, revoltado pelas agruras sofridas na infância. Hoje, ele é um homem tranquilo, de coração bom, que tem plena consciência da situação histórico-cultural e sócio-econômica da época, bem como da formação tradicional do pai (que não era muito diferente dos demais da sua época) e consegue materializar a relação homem/mundo com distanciamento, simpatia, generosidade, postura crítica, humor, sem deixar transparecer ressentimento, raiva ou revolta. Um pouco de tristeza, melancolia, sim; às vezes, até de saudade. No entanto, mesmo os pensamentos e lembranças mais cruéis não chegam a se constituir um relato sarcástico, amargurado ou vingativo. Impressiona como o autor-pessoa se despe e revela de forma honesta, sincera e verdadeira seus sentimentos mais íntimos, como seus medos, fraquezas e, sobretudo, o surgimento dos primeiros botões do amor, mostrando como esses sentimentos e experiências ficam marcados para sempre, mesmo quando, posteriormente, encontramos “a flor” com a qual nos uniremos e produziremos frutos.  

Assim sendo, às luzes do pensamento bakhtiniano, podemos concluir que O Menino (quase) Perdido é uma obra (quase) biográfica porque nela os fatos narrados não são apenas sentimentos, lembranças, relatos pessoais, memórias do autor-pessoa, mas uma recriação estética de um autor-criador.
___________________________
(1) FARACO, Calos Alberto. “Autor e autoria” in: BRAIT, Beth (org.). Bakhtin: conceitos-chave. 4ª ed., 3ª impressão. São Paulo: Contexto, 2010.
__________________
 *Deolinda Marques é professora e escritora, mora na cidade de Bocaina – PI. Autora do livro“Um Rio em Chico  Miguel”, Ed. Cirandinha, 2006, Teresina, PI.

                        
                                      Bocaina-PI, 25 de julho de 2011.

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