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PAIXÃO TERAPÊUTICA

12 de fevereiro de 2010 - 17:18

Francisco Miguel de Moura*

    Da boca de um observador da gramática e da estilística, ouvi, certo dia, alguns adjetivos para mim inusitados. Em nenhum estilista da língua, inclusive Eça de Queirós e O. G. Rego de Carvalho, me deparei com palavras tão bem ajustadas ao pensamento. Fiquei impressionado.
    Depois, falando com minha gravata, eu me criticava severamente, porque reconheço que sou muito verboso.
    Adjetivos, embora empregados a toda hora e por qualquer um, não são de uso fácil. O descuidado cai na banalidade e na desvalorização, provocando não poucas vezes confusão no ouvinte, e ao tentar um elogio, pode terminar produzindo uma zombaria e vice-versa. A economia do adjetivo produz linguagem correta, clara, simples e verdadeira. 
    Para acentuar os exageros no uso dessa categoria gramatical, há, no anedotário da vida literária brasileira, o que ocorreu entre um célebre escritor, possivelmente Graciliano Ramos (é uma tirada muito parecida com as dele), e outro menos experiente. Diz-se que o novato ainda aprendiz de escritor, no momento em que corrigia seu próprio texto, lhe pede ajuda, acentuando bem um período:
    - Tenho aqui dois adjetivos, Mestre, mas eles juntos não me soam bem. 
    - Sim – o velho Graça levanta os olhos e os óculos na direção do interlocutor, como se afirmasse que estava ouvindo sua leitura.
    - Mestre, que devo fazer? Cortar um? 
    - Na dúvida, corte os dois, meu filho?
    Ao aluno só restou obedecer, pois acabava de receber uma das maiores lições de sua vida.
     Depois deste diálogo introdutório, meu leitor, é que começo a relatar-lhe outro episódio sobre adjetivo, o qual dá motivo a esta crônica. E este caso ouvi-o, de viva voz, numa manhã de dezembro, no “Teresina Shopping”.
    Um velho bancário, aposentado como eu, que o batizo agora de Antunes, mantinha-se calado, sentado a uma à mesa, quando cheguei e encetamos animada conversa. Falávamos sobre família, sobre as festas de Natal / fim entrada de Ano Novo, enfim coisitas corriqueiras.  De repente se aproxima de mim d. Nazaré, minha amiga de muito tempo. Antunes não a conhecia. Levantamos para cumprimentá-la, fiz-lhe a apresentação.  Vai não vai, ali mesmo de pé, dona Nazaré fala na filha.  Meu amigo aposentado, através de seu próprio filho, já conhecia a filha dessa senhora. Ele, então, entra na minha conversa com d. Nazaré, o nome da senhora minha amiga, exclamando:
    - Ah! É a Delzuíte? Eu sei conheço-a muito bem. Amiga de meus filhos! Ela é tão delicada, tão boa, que me tornei sua amiga também, amiga quase íntima.
    Agora olhava para mim, olha para d. Nazaré e em redor, como se participando o que sucedera na festa de Ano Novo, em sua casa, e assim começou seu relato:
    - “A amizade cresceu, d. Nazaré (é assim seu nome?), em virtude de outros encontros (sociais, trabalho, etc.), a ponto de sentir-me com direito a dirigir-lhe brincadeiras. Naquele dia, lá em casa, estávamos com uma festinha de família. Eu falava com o Arcebispo, meu convidado especial, quando ela chegou. Ambos nos voltamos para dar-lhe a merecida atenção. Conversa vai, conversa vem, eis que eu lhe digo:
    - Minha amiga Del, já lhe tenho tanta amizade que não sei o que dizer-lhe.  Esta amizade é quase uma paixão.
    O Arcebispo meteu-se no assunto, e é claro, aguardávamos sua sábia palavra com ansiedade:
    - Eu também sou apaixonado por você, Delzuíte. Apaixonado no bom sentido.
    - Como assim? – nós dois, eu e o eclesiástico, em silêncio nos perguntávamos, assustados diante da situação que deixara a moça como que imóvel, paralisada.
    Mas ele foi rápido e certeiro, e finalizou com espírito:
    - Mas é uma paixão terapêutica, minha santa.”.
    “Todos nós caímos na gargalhada.”.
    Quando o meu amigo acabou de contar como foi a conversa, em sua residência, com a filha de D.Nazaré, eu exclamei:
    - Péra aí! Na minha vida de escritor nunca vi nem ouvi adjetivo tão inusitado para a palavra paixão. Deixe-me anotá-lo para uma crônica.
______________________
*Francisco Miguel de Moura, escritor brasileiro, mora em Teresina. E-mail: franciscomigueldemoura@superig.com.br

 

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