Deixando um pouco de lado o terreno da ficção, que tenho explorado neste precioso espaço aberto por esta revista, escrevo hoje para falar de algo que acomete, afeta e aflige sistematicamente o dia a dia de nós piauienses, brasileiros, humanos, enfim. Refiro-me a um antigo problema da humanidade, que provém da época das cavernas e que a civilização foi-se encarregando de desbastar, polir até fazê-lo chegar a níveis mais toleráveis, sem que, entretanto tenha ainda conseguido exterminá-lo. Falo sobre a má-educação em seu sentido estrito, da “falta de boas maneiras”, para citar uma expressão tão consagrada pelas mães, professoras de etiqueta, além dos padres e bedéis de outrora.
Num mundo permeado por uma espécie de crise do desrespeito, em que sequer se levam em conta normas primárias de bom comportamento, como dizer-se um “bom dia” ou “obrigado” ou “por favor”, é cada vez mais difícil encontrar um motorista que ceda a vez ao pedestre, um jovem que dê seu assento a um idoso ou, pasme-se, um lojista ou vendedor qualquer que trate com fineza seu cliente. Outro dia, surpreendi-me, aqui no Rio de Janeiro, onde moro, quando soube da grosseria de uma atendente de uma loja dita “de nível”. A freguesa, depois de uns quinze minutos de chá de desprezo, no qual nem ao menos mereceu um olhar da funcionária, enquanto remexia embaraçada um amontoado de roupas de grife, ainda teve de ouvir resmungos e referências preconceituosas à sua classe social por parte da balconista.
Neste caso em particular, devo debitar em parte absurdos desse tipo à famosa cordialidade brasileira, já mencionada em certo sentido por Sérgio Buarque de Holanda. Nossa passividade tupiniquim põe-nos muita vez em situação de aceitação dos desmandos sociais, políticos e outros, mesmo que escabrosos, numa posição de sujeição e quase-conivência. Se sempre ousássemos desafiar esse estado de coisas, denunciando, recorrendo à Justiça e divulgando esses atentados a nossos direitos mais básicos, certamente não veríamos – ou veríamos muito menos – irresponsáveis dirigindo embriagados, dando os conhecidos “cavalos-de-pau” e(ou) promovendo rachas em ruas movimentadas, polícia imiscuindo-se em criminosas negociatas e políticos apropriando-se a céu aberto de recursos que são de todos.
Esse episódio ocorrido no Rio repete-se todos os dias nos mais variados recantos deste Brasil do futuro. Certa feita, em Picos, entrei em uma lanchonete onde o balconista também não me viu por longos cinco minutos, embora só houvesse minha presença ruidosa no local. Chamei, bati palmas, mas o rapaz parecia mais preocupado em ouvir seu forró predileto e ainda me respondeu com um zangado “o que éééé?” quando se decidiu a me dar ouvidos. Noutra ocasião, novamente nesta mesma cidade, vi à distância uma senhora cair em plena praça diante de um grupo de jovens saudáveis e radiantes e, não fosse ajuda de um homem, também idoso, que apareceu para acudi-la, a mulher teria arfado um bom tempo sobre a calçada escaldante do meio-dia.
Há quem sustente que os nordestinos são por natureza mal-educados, falam alto, nunca pedem licença, raramente cumprimentam ou agradecem. Admito que acreditei nisso por algum tempo, mas hoje, refletindo sobre essa pseudoteoria, concluo que talvez só em parte ela tem algum fundamento. Nascido sob o calor abrasador do sertão e das intempéries sociais e econômicas, o caboclo do Nordeste tem de se voltar muito mais para questões essenciais a sua sobrevivência do que para maneirismos e comportamentos por ele taxados de meras frescuras. No entanto, ao conhecer o “Homo maximus” do sul, constatei que também existem um sem-número de vícios a macular seu pretenso alto grau de civilidade. Basta lembrarmos que eles é que inventaram (ou importaram) o telemarketing para tomarmos ciência da gravidade de sua culpa.
Essa modalidade abjeta e desumana de teleprestação de serviços teve seu primeiro abrigo no universo megaindustrial paulistano. Antes tivesse falecido nos Estados Unidos junto com a burguesia sequiosa de lucro que prende negros e latinos por lá. Porque não há atualmente nenhuma escola de violação de direitos tão eficiente quanto a deles. Quem possui ou já possuiu cartão de crédito ou telefone celular, para ficar só em dois exemplos, sabe muito bem de que falo, pois já perdeu várias horas de vida.
Telefonar para uma dessas operadoras quase sempre significa ganhar duas pontes de safena. Longas esperas na linha, transferências consecutivas de um atendente para o outro, demora ou recusa na solução dos problemas. Uma lista infinda do desrespeito em seu pior tipo: o disfarçado. Os atendentes, mais semelhantes a andróides treinados, recepcionam-nos com um indefectível tom roboticamente polido e, fingindo educação, seguem induzindo os consumidores ao erro, ao prejuízo, ao estresse, afinal.
Não é definitivamente desse tipo de boas maneiras que estamos carentes. Ademais, o “sulista” em geral, já que falamos aqui de estereótipos, tem fama de ser mais frio, de trato social arredio, ao passo que nós nordestinos somos mais conhecidos pelo bom nível de calor humano e hospitalidade, o que de alguma forma externa nosso modo de ser gentil.
Assim, percebe-se que a generosidade não tem pátria. Ela deve acompanhar quem quer que deseje harmonia em qualquer grupo. Ela não é apenas uma forma de dar boa fama e bom nome a alguém nem deve ser uma mera norma artificial entre os núcleos mais grã-finos da sociedade. Não depende de classe social, não é o capital que pode deixar alguém mais humano, como também não de cor, credo, sexo. É um imperativo mesmo da convivência. Uma necessidade que pouco a pouco está se isolando na primeira posição no ranking das prioridades, haja vista os conflitos banais que temos presenciado, mas que têm gerado consequencias letais suportadas por pessoas, famílias e nações numa fúria autodestruidora.
Quanto mais nos utilizarmos de palavras e gestos de delicadeza nas situações mais simples, menos precisaremos nos espantar com corrupção, discórdias, desmandos. Menos suportaremos indiferença, frieza. Menos veremos prestadores de serviço cobrando preços tão caros e insuportáveis quanto sua educação.
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