Foi assim mesmo numa sexta-feira de via-sacra e jejum que Zé Mutenga decidiu dar a grande guinada em seu destino. Resoluto, marchava quase em desatino rumo ao primeiro bar que encontrasse. Iria por fim àquele martírio sem fim que estava vivendo havia pelo menos duas décadas. Sua vida fora até ali um marasmo, um massacre lento e silente, uma modorra interminável e era preciso dar um sentido a tudo nem que fosse para morrer sem sentir a libertação, num ato de sublimação extrema.
Era esse José Alves de Aquino, um Zé entre tantos nos Brasis que sabemos, que vergastava o vento num andar insano e trôpego, numa ânsia desadorada de beber até o suspiro derradeiro. Jamais saíra das normas nos sessenta e dois mal vividos. Homem pio, devoto de Santo Antônio, colhedor de caju e carcereiro dos travos da alma. Nunca se ouvira sua voz que não nos cultos domingueiros da igrejinha vizinha. Vivia para o espírito. Era um anjo cândido para Joana Dedé, a esposa. Mas um tirano para sua consciência.
A companheira, de prendas do lar e de olhos só para o marido, não suspeitava ao mínimo o quanto passara a perturbar a quietude e bonança da vida dele, desde que passou a ser alvo de grossos falatórios nos bares e calçadas da cidade. “Aquela tá pior que castanha em outubro, é pra quem quiser”, bradavam as bocas miúdas.
Inebriado por paixão e zelo, Zé Mutenga vivera até então a deslizar, noite após noite, entre as contas do rosário os dedos calejados. Era de uma pureza freirática e amava a mulher como quem teme perder o que há de mais divino na vida.
Narraram-lhe na Sexta-Feira Santa o fuxico que saltitava de boca em boca. Seria Chico Soares o último de uma extensa série de romances de Joana Dedé, mais lhe foi suficiente e necessário saber só daquele, não tiveram coragem de falar de todos. Mas isso já bastara a ele e à coceira do leva-e-traz, que como muitos nesse mundo nutre-se da ruína do próximo. E como se satisfazem com a devastação do coração alheio. A pretexto de fazerem o bem a um ser humano, certos tipos usam do artifício de revelar-lhe uma verdade que, sabem bem, lhe irá demolir para deleite ou vingança do informante. Suave mari magno, disse o poeta latino. E há quem viva bem sem saber da vida do próximo.
A descoberta da traição fez aflorar de seu imo todos os sentimentos até então sufocados pela boa pele de cidadão ordeiro e cordato. Queria agora, pela primeira vez, ao menos ser um homem convencional, o que jamais tinha sido. Lembrava-se de si mesmo apenas como o pacato cavalheiro que ia a Picos todos os sábados para encher a casa de mantimentos e a esposa de mimos, sem sequer dar a si o direito de uma merenda lá na Bomba depois da manhã de intenso calor. Por isso a dor que o asfixiava parecia existir desde muitos anos antes, muito além daquelas poucas horas que fazia desde que soubera de tudo.
Um tipo obscuro qualquer, talvez o mesmo autor da intriga, entendeu de dizer a Chico Soares que Zé Mutenga pretendia tirar-lhe a vida naquele mesmo dia. Tendo ouvido isso, o sujeito bronco e de poucos amigos, também conhecido como Chico Facão, apressou-se em tomar satisfações sem mais preâmbulos. Não seria ele, Francisco de Almeida Soares, o pegador, o macho de todas as fêmeas da região, que levaria para casa o desaforo de um fraco rato de igreja.
– Me dê duas doses. É só pra molhar a goela – disse quase sussurrando ao balconista um trêmulo Zé Mutenga.
– Você bebendo... Mas hoje é só vinho, Zé!
A cachaça desceu em brasa na garganta habituada a café e água, enquanto a mente também ardia em labaredas escaldantes, como quem respira os infaustos ares da pré-morte. Inflou o peito de ar e pela primeira vez sentiu um mundo diferente ao seu redor. Uma atmosfera pesada e totalmente nova cingia-lhe o espírito. Não sabia o que era estar entre os bêbados, no meio da boêmia que até então só conhecera à distância e a qual sempre repudiara. Pensou em até talvez conversar de forma cortês com seu grande rival e resolver sem mais querelas o infortúnio em que mergulhara. De que adiantaria ombrear com Chico se havia tantos outros a disputar com ele o título de predileto de Joana Dedé? Estava decidido: Mutenga apenas iria indagar ao garanhão a veracidade ou não da fofoca. Seu novo inimigo era perigoso demais para ser desafiado e Zé não iria arriscar-se a perder aquela nova vida de prazeres carnais que estava começando.
Mas Chico, pensado estar ciente do que o espreitava, entrou ventando no bar, enquanto brandia enorme punhal e, antes que um lampejo de olhar pudesse ameaçar o possesso Chico, Zé Mutenga sentiu mexer dentro de si toda a folha da faca de seu oponente, ávida de sangue. Ele sequer pudera dizer que não estava ali para confusão nenhuma e que só queria um diálogo cordial. E enquanto a cabeça ingênua da vítima pendia para o chão, seus olhos semicerrados divisavam vagamente o semblante vitorioso de seu algoz e o rosário de contas de madeira que lhe desabara do pescoço se desfazia em dezenas de bolinhas pelo chão sujo. Quis agir como valente, espraguejar, matar. Mas o sangue da garganta já superava as idéias bambas da mente. E se foi esvaindo aos poucos. Ao longe a cantiga da via-sacra que passava fazia-se ressoar pela última vez nos ouvidos do agonizante:
“...pela virgem dolorosa...”
Zé Mutenga finalmente mudara de vida. Era agora um homem mundano.
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