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Sobre a vida e seus pesares

16 de outubro de 2009 - 12:59

Júlia e eu nos tínhamos visto pela primeira vez em nossa adolescência. Numa época vibrante em que não pensávamos no dia seguinte. A vida acontecia na fácil felicidade do presente e o sonho dourado de então parecia infindável. Passamos a ser um só em alma e simplicidade, como raramente se vê na vida. Não havia manhãs em que ao menos não nos telefonávamos nem noites em que não dividíamos horas de conversas, descontração e alheamento ao mundo.

Se um dia houvesse em que não tivéssemos trocado no mínimo um “tudo bem?”, a queixa naquela noite seria certa e plangente. Os encontros sob o tamarindeiro em frente a sua casa eram diários e o guaraná compartilhado no bar de Enéias certamente viria a cada noite na hora do recreio do ginásio. A lógica evolução dessa amizade para um perfeito namoro nos deixou ainda mais próximos e apaixonados. Tínhamos um projeto, uma identidade, uma vida.

Ela era para mim o que de mais interessante pode ser uma mulher. Meiga, delicada, decidida e bela, intensamente bela. Júlia era a linda sílfide que me punha em êxtase sempre que a encontrava desfilando suavemente em minha direção, com cabelos louros ondulados esvoaçando sobre um olhar penetrante que partia de olhos azul-turquesa. Havia languidez em seus gestos e uma incomparável sensualidade em seu falar, como se quisesse cativar cada ouvinte a todo instante.

Sabedor que era dos dotes dessa linda diva, orgulhava-me de mim mesmo por ter conquistado um espaço tão privilegiado e cobiçado por outros colegas de minha turma. Ninguém entendia o que existia de extraordinário em mim que despertava surpreendentemente a atenção daquela beldade. E isso me nutria e estimulava, trazendo-me uma felicidade tão completa e arrebatadora que ninguém acreditou quando, logo após meu ingresso na faculdade, surgiu o boato de que eu a havia trocado por Maria Paula.

A bem da verdade, nem eu próprio acreditei. Maria era insossa, apática, mórbida mesmo. O que me atraía nesta moça tão sem predicados era talvez sua dessemelhança com Júlia. O abismo entre as duas parecia um convite para a libertação das amarras em que me via sufocado pelo amor de minha antiga deusa de olhos da cor do céu.

O infortúnio não exige causa nem justificativa e foi sem nenhum motivo que beijei Maria Paula na primeira “calourada” da faculdade, mesmo ser qualquer intenção de trair Julinha. Maria cercava-me quase à exaustão havia meses, talvez por inveja ou por mero desejo de conquista. A verdade é que nessa pequena aventura furtiva não estava embutida minha vontade de ser infiel ou o propósito de igualar-me a um cafajeste do tipo comum, encontrável em qualquer bar da esquina depois de deixar a namorada dormindo.

Não preciso dizer que Júlia fez de nosso último encontro um momento tristemente inesquecível. Expôs num relato comovente toda nossa história, com cada detalhe e cada sentimento colocado de maneira crua, ainda que suave. Pela primeira vez, ela desviou-se da habitual serenidade e copiosamente chorou em meu ombro, como que pela última vez.

Em seus soluços despejava sobre mim um desapontamento imensurável, para meu incurável remorso, ao falar do quanto havia sido sincera ao longo de nossa união. Disse-me que jamais deixara de compartilhar comigo o que quer que lhe tivesse acontecido. Se seus medos, alegrias e desventuras tinham sido até ali também meus, que razão me havia levado a gostar de outra mulher sem que ela ficasse a par de tudo, sem que eu lhe confidenciasse minha nova aventura, mesmo que isso nos custasse o rompimento?

Não sabia eu que a confiança mútua fora até ali nosso forte sustentáculo? Era o que Júlia questionava sem nada entender, pois não havia de fato qualquer explicação. Ainda assim, eu procurava desesperadamente dentro de mim mesmo algo a dizer, menos para sair ileso dali do que para reconfortá-la. No entanto, o que consegui balbuciar não foi além do óbvio e Júlia nunca fora óbvia, previsível.

No melancólico desfecho daquela conversa, que ainda guardo contra minha vontade, houve uma linda mulher afastando-se lentamente de mim sem olhar para trás, deixando que seus suspiros fossem ouvidos até que virasse a esquina, justamente no dia em que, não fosse a malfadada descoberta de minha deslealdade, ela me contaria radiante que partiria para Brasília no dia seguinte. Fora aprovada em concurso para a diplomacia e entraria logo depois na fase de treinamento.

Por absoluta falta de sintonia, o namorico com Maria Paula não resistiu à segunda semana, mas a angústia da falta de Júlia insistia em romper o décimo ano, especialmente em razão da falta de notícias da lourinha memorável de meus sonhos. Ela realmente decidira nunca mais manter contato, enquanto existisse algum sentimento para comigo. Isso era o que ainda conservava a esperança de que poderíamos retomar aquela bonita história de antes. Mas o arrependimento daquele meu ato irrefletido ainda me consumia à medida que o tempo de nossa separação se ia ampliando.

Era cada vez mais tormentoso imaginar que vida poderíamos estar levando, que lindos filhos já poderíamos ter, que planos teríamos, não fosse o fatídico engano daquela festa. E que surpresa me invadiu, quando deparei um cartaz num clube em Curitiba, onde me refugiava do tédio por uns dias, trazendo uma foto de Júlia Lemos! Ali estava um pedido de doação de medula para aquela pessoa que se encontrava à morte. Minha musa corria perigo, não tive dúvida. E eu lhe doaria, sim, medula, coração, se eu ainda o tivesse. O cartaz também expunha um número de telefone, que logo teclei nervosamente em meu celular. Era de um hospital de Brasília.

Seguindo as informações da atendente da enfermaria, tomei o primeiro avião daquela fria tarde sulista com minha cabeça em chamas. Rumei para a capital federal com lágrimas insistentes escorrendo sobre minha barba por fazer. Voei também quando desci do avião até o primeiro táxi. Cheguei ao hospital já ao anoitecer, mas ainda no horário de visitas.

O suspense que houve dali até que eu entrasse tremulamente no quarto onde ela estava refletia a profusão de sentimentos de meu espírito: medo, saudade, aflição. Mas empurrei com cuidado a porta do quarto e entrei com pés de pluma. Fui aos poucos avistando a mesma imagem divina que eu já conhecia. O corpo se fazia cobrir com um lençol, mas os cabelos dourados à mostra ainda revelavam todo o viço da beleza que a enfermidade não maculara.

Um sorriso de reconhecimento apareceu em seu rosto e com a ternura de sempre ela me informou que estava muito bem, pois já conseguira um doador compatível, o transplante tinha acontecido no dia anterior e as promessas da equipe médica que a operou eram as melhores. Perguntou sobre mim para depois falar de sua vida depois de nosso distanciamento, seu sucesso na carreira diplomática, sua doença inesperada.

Quase estático, eu apenas me entregava ao som daquela voz que sempre amei, sem perceber que fiquei ali por mais de meia hora. Nossa boa conversa foi interrompida pelo marido de Júlia, que entrou sorridente empunhando um buquê de margaridas. Deu-lhe um beijo na testa e cumprimentou-me com delicadeza, após ter sido apresentado a mim pela esposa. Ficamos conversando a três um pouco mais e, quando anunciei minha saída, ela insistiu que eu ficasse em sua casa alguns dias, o que agradeci inventando um pretexto qualquer para esquivar-me do convite.

Não sei o que pensei, mas despedi-me dela com uma enorme alegria. Júlia estava bem e feliz em todos os aspectos de sua vida. Era o que me interessava. Saí quase cantarolando pelos corredores do hospital, entrei em uma lanchonete vizinha e comi uns três sanduíches com suco de tamarindo. Estava com muita fome, sobretudo de viver.
 

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