“Os tiros que, pelas costas, atravessaram o coração e calaram a voz de João Pedro Teixeira a 2 de abril de 1962, num pôr-de-sol da Paraíba, estraçalharam também as cinco cartilhas que ele, analfabeto, pastor protestante, pai de onze crianças de pouca idade e presidente da Liga Camponesa de Sapé, levava para os filhos maiores aprenderem as primeiras letras com sua mulher semi-analfabeta.
Sobre a terra calcinada de Sapé, em crime pago, as cinco cartilhas encharcadas de sangue e de esperança, certamente partilharam durante todo o dia em que ele as levou sob o braço, os seus muitos sonhos de liberdade e dignidade para o homem do campo.
Ao anoitecer, dilaceradas na tocaia assassina, novamente elas partilharam, do líder, a morte comprada e necessária aos ainda existentes coronéis da terra. Suas muitas letras, que João Pedro jamais desenhou sobre qualquer papel, ele as usou com desassombrada coragem, fazendo da palavra seu ministério, não apenas de fé, mas também de mobilização dos camponeses em defesa dos direitos humanos dos que lavram a terra e dela produzem a vida”.
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