Disse bom dia, adentrando o recinto, depois de longo tempo suando bicas na sala de espera do juiz. Bom dia, respondeu este, ainda bem que parecia bem humorado, disposto a receber a carga de problemas que aquele seu jurisdicionado queria lhe expor para, ao final de tudo, receber alguma solução, se solução alguma houvesse para o caso. Fizesse a justiça da terra, já que a justiça de Deus nunca lhe faltou nem faltará, mas a dos homens, quer dizer, das mulheres, digo bem de uma só, até aqui só injustiça e ingratidão.
Ia como carne da pá... Como jumento cansado, subindo ladeira levando nas costas uma carga de espigas de milho bem estaqueadinhas dentro dos jacás e um menino montado em cima, sentado na cangalha, no meio da carga, com um cipó de pau-ferro enfiando cipoadas.
E é assim, velho?
É, doutor. Quero dizer: Pior. Sofrimento é pouco.
Era antigo comprador de algodão, agente do pai do juiz, de onde começa a admiração pelo magistrado, naquele tempo um simples menino da roça, hoje um homem bem disposto, admirado por todos, doutor de prender e soltar, de mandar botar e tirar, nem parece aquele. Particularmente, passou a admirá-lo quando o doutor ainda advogava e livrou um filho seu de nome Adão de ser preso, que estava prestes a ser. E era um caso pesado, difícil... Quer dizer que o meu problema também é difícil, que não estou sabendo resolver, arrematou.
Tem um conflito com a mulher, com quem não vive mais, ou não faz mais vida, e que está na posse de uma casa situada em Taperas, de dez metros de frente por quarenta de fundo, construída por ele mesmo ainda no tempo da finada Maria. Morou nesta casa com a finada nos bons tempos em que ela era viva, mas já doente de câncer, ficando uns tempos em Taperas e outros em Sobradinho onde possuía morada também, atendendo aos pedidos da finada Maria que por causa da doença vivia em grande desassossego, mudando de lugar, buscando o alívio que a coitadinha só encontrou com a morte.
Com a finada Maria comida de câncer sem aguentar mais fazer sexo caiu nas armadilhas de Luísa que vez por outra lhe puxava pelo cabresto para o escondido... Eu e os outros, que ela já era de todos. Foi amiudando os contados e com a morte da finada Maria acabou ficando de vez com a dita Luísa, procurando esquecer de tudo que ela já tinha sido de todos, que até filhos tinha tido:
Já! Quando me juntei, ela já andava debulhando moleques.
Se havia fidelidade, explica que tem vergonha de dizer, mas era sim da parte dele e da parte dela era assim mesmo: Quando chegava em casa que abria uma porta a outra caía.
Mas não escreva isto não que eu tenho vergonha.
Lembra de não ter se casado de papel passado. Na presença de juiz afirma de certeza que não. Nunca foi. Mas entrou na igreja com ela. Só entrou e o padre disse um blablablá.
Faz uma pausa. Procura ser forte, ser homem. Evita o choro. Enfim, prossegue:
Foi por exigência do pai dela que até tio meu é. É! Sim. A desgramada é minha prima. Sim, senhor. Também isto.
Nasceu em 26, no dia 22 de abril. E se chama Francisco. Apelido tinha só quando era menino. Um apelidozinho besta sem importância. Com o tempo foram esquecendo dele e agora também não se lembra ou não quer lembrar, disse que ainda vai lembrar, mas na verdade não lembrou para que ficasse no cabeçalho do termo. Com a finada Maria foi casado durante dezoito anos. Foi mulher que lhe deu sorte, tudo que adquiriu de patrimônio data desse tempo. Com Luísa, fez uns trinta anos de vida. Ri e repete:
Trinta anos de vida.
Que vida? Vida boa?
Parece que Deus é quem me dá um coração bom. Cozinhava arroz e feijão, mas não botava no prato. Dizia: Vá botar seu prato, se quiser. E na hora daquilo, dizia: Vá comer rabo de jumenta.
Era mesmo?
Era pior. Só Deus para me dar tanta paciência.
A carta do advogado convidando para comparecer no escritório em dia e hora ali no escrito para tratar de assunto do seu interesse e evitar os transtornos de uma demanda judicial, ela fez de rebolo nos pés do portador.
Só atendia se fosse ordem do juiz.
Quer a carta de separação?
Não, doutor. Eu só queria que o senhor desse uns conselhos. Dissesse essas coisas que eu não sei dizer... Pra ela criar juízo. Isso! Pra ela criar juízo.
Ah! O senhor está querendo é se juntar novamente com a mulher.
Não. O doutor não me compreendeu. Eu só queria que ela me deixasse armar minha rede num dos cantos da casa.
Ah!Sim.
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