24 de julho de 2009 - 17:01
Da força intelectual de 52 anos, quatro livros publicados, dois inéditos, nasceu para a defesa do pensamento aberto, amplo e vanguardista. Para a maioria dos conservadores locais sua obra e presença causam desconforto, polêmica e discussão. E até mesmo isolamento, de tempos em tempos. A causa que provoca isso é a mesma: pensa e tem opinião própria, sobre todos e tudo, e se manifesta.
Com raízes alimentadas na localidade Baixio das Abóboras, interior isolado de Picos, até se fixar nos arredores do município de Sussuapara [PI], amanhecendo sob os cantos da sinfonia dos pássaros e a valentia da ventania nas carnaubeiras, resta-lhe, acreditar que a luta vale a pena, com os custos que ela impõe aos que sonham e agem.
Não se chega à maturidade superior de poeta sem abrir esse baú. E sem, falando a verdade que poucos querem aceitar, abrir caminho para o que está além-mar, décadas à frente da Picos atrasada em que vivemos com as instituições olhando uma para as outras sem saber dar respostas efetivas aos desafios que se colocam no cotidiano. E pra o lado que vamos e o porquê dessa opção futura.
Quem tentou vestibular por catorze vezes consecutivas até chegar ao Curso de Direito da UFPI [Universidade Federal do Piauí], de onde saiu homem formado; de quem freqüentou o Curso de Teologia, e depois o de Letras. De quem escreveu artigos, crônicas, ensaios, poemas para os jornais de sua terra natal – criou dois, o "Jornal de Picos" e o "Voz de Picos" - e os da Capital. De quem sempre reafirmou o valor da vida.
A maturidade poética chega para ele que aproveitou a cultura popular para transformá-la em algo nobre a ser servido como arte, como encanto, como espetáculo aos ouvidos que tiram o brilho do prato principal da refeição dos reis, dos príncipes, dos estadistas mundo afora e das pessoas simples do nosso dia-a-dia. Afinal, poesia é de consumo universal.
A poesia tem sua força e seus instrumentos. Ele bem sabe disto, quando começou a praticá-la pelos muros da cidade e a imprimi-la numa fase conhecida como "Geração Mimeógrafo" – poucos recursos financeiros, limitação de pensamentos e perseguição à liberdade de imprensa, pela Ditadura Militar, pelas oligarquias, custos gráficos estratosféricos e longe da realidade – cujo reconhecimento era de boca a boca. E demorava até se chegar aos ouvidos mais sensíveis dos que tinham conhecimentos e sabiam avaliar.
Buscar entender seu tempo é coisa de poeta que sabe bem o custo de pensar e paga por ele. Veja esse trecho do artigo "No Mundo da Lua": " Hoje o Mundo não tem mais lugar para quem só pensa em comer e defecar. Os que fazem injustiças em nome da Justiça e se dizem juízes. [São na verdade, como alguém já disse, estelionatários da dignidade]. Riem como rincham os gobilas da minha terra. Ficarão para trás como ficaram as outras espécies inferiores".
O poeta descortina-se. É Ozildo Batista de Barros, alfabetizado pelos pais na infância, freqüentando mais tarde Escolas Isoladas, que se extinguiram rápido e esteve na condição de autodidata até aos 11 anos, quando se matriculou no Grupo Escolar Coelho Rodrigues, no centro de Picos, e tinha que vir às aulas no lombo de um jumento, por cerca de trinta quilômetros entre a ida e a volta. Era a vida de quem optou – acertadamente – pelo ensino, saber e conhecimento.
Quando escreveu "Quem Manda na Sua Vida?", em 1977, o livro de estréia em sua carreira, já sabia que dentro do advogado militante que chegou a presidência da Seccional de Picos, da OAB [Ordem dos Advogados do Brasil], dando uma nova roupagem e restabelecendo a importância história da categoria na sociedade estadual, era um escritor que lutava para ganhar o mundo.
Também em mimeógrafo, lançou em 1981, "Etc & Tal", o livro poético, de significado forte pela busca da defesa das liberdades e contra a opressão que se manifesta no meio social de várias formas. "O que mais me impressiona em Ozildo é a maneira firme e corajosa como denuncia as mesquinharias da humanidade", enfatiza a Mestre em Letras e professora Deolinda Maria de Sousa Marques.
O livro autobiográfico "Das Pedras aos Picos", lançado em 1984, contando sua trajetória política de militante de esquerda a presidência da Câmara Municipal de Picos, passando pelas candidaturas de deputado estadual e prefeito de Picos, pelo PDT, reforçam que o poeta também é homem, e por isto, sente-se obrigado, além de defender seus pensamentos a lutar para mudar a realidade social que tanto o incomoda e que aos poderosos serve de instrumento para a continuidade da dominação do sistema político vigente.
A força do livro foi enorme que influenciou o deputado federal e jornalista Neiva Moreira [PDT/MA] a lançar o livro biográfico "O Pilão da Madrugada", que reúne informações de sua batalha, em solo maranhense, para mudar àquela realidade tão parecida com a nossa.
O escritor João Ubaldo Ribeiro, de tantos livros publicados, entre eles, "Sargento Getúlio", "Viva o Povo Brasileiro" e "A Casa dos Budas Ditosos" em correspondência ao escritor piauiense Magalhães da Costa, em 1985, já resumia assim o livro:" Sempre foi minha opinião, mormente depois de ter conhecido o Velho Nonon, que, longe dos grandes centros do País, se escreve tão bem ou melhor". O Velho Nonon era o apelido do escritor picoense Fontes Ibiapina, radicado em Parnaíba, depois de morar em Teresina.
Para João Ubaldo, "o livro do santamente inconformado Ozildo, só posso dizer o que você já sabe: gostei de tudo". Passou no batismo de fogo de um integrante da Academia Brasileira de Letras [ABL].
Reeditou "Etc & Tal", com mais poemas e por isso ficou "Etc & Tal, Versos e Reversos", em 1999. Do escritor Francisco Miguel de Moura: " Como há mil formas de se ler um poeta, uma delas é sendo simples, sincero, sem medo das palavras, leiam, releiam, treleiam o poeta Ozildo Batista de Barros. Ele é assim". Com essa sugestão, Francisco Miguel confirma Ozildo no rol dos poetas piauienses.
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